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Carne de coco

(se soubesse
te dançava)

mas!
dá-me à língua
úmida
lâmina translúcida
/ já hálito, ânima
leva-me ao colo do efêmero
e lá
/ plenamente

me abandone

 
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Posted by on August 31, 2014 in literario

 

Eu nao sei me comportar no silencio

Eu leio o jornal, eu paro. Eu sento,
Eu vou ali, eu volto, eu sento,
Eu cantarolo, eu começo a ler a revista
De arte, eu paro, eu molho as plantas
Eu penso em ligar a tevê, depois penso na vida pra levar,
Eu paro, eu penso na falta de verossimilhança do ataque de Ghouta, eu
Volto pro sofá e me irrito de ser adulta e ter que saber do ataque de Ghouta,
Eu guglo a série de porcelana do meu porta-ovo, eu esqueci
O creme de leite na mesa de ontem pra hoje, eu começo a lavar
As louças e me alegro com a visita que vem e me preocupo
Que afoguei o cacto, e me irrito com as maiúsculas automáticas
E desvio o olho da mente das imagens que criei do ataque de Ghouta,
Eu volto pro sofá e folheio a revista, eu olho pra o girassol
Na mesa que desistiu da vida e lembro de mandar um e-mail e lembro
Que esqueci e volto pra cozinha e tomo (que tinha esquecido) a vitamina D,
O multivitamínico, o superalimento, o digestivo, eu olho o relógio e ainda falta –
Falta nao, sobra, sobra muito tempo entre agora e uma tarefa definida,
Eu penso em cores tácteis de terra úmida grudada na barra da pedra,
Eu decido que amo minhas cadeiras e definitivamente estou numa fase
De supremo respeito pelas ervilhas, e lembro da fila do caixa numa livraria em São Paulo,
E atualizo a lista de compras no app: ervilhas, e meu dedo lembra a sensação
De pegar numa fotografia, eu olho preço de computador, eu vejo a previsão do tempo e olho para fora da janela: confere!,
Eu vejo a programação de outono (nada agora, estamos na entressafra), penso na palavra
tosomhet (duolidão), nos afazeres de amanhã, nos prazeres de amanhã,
No pé de milho de Djavan, na bomba de Cazuza, tento lembrar quando custava uma impressão
Em preto e branco na sala de informática de Letras (que a gente chamava de outro nome),
E volto porque não tenho certeza se tomei a vitamina D, vou no corredor anotar os oito
Números do medidor de energia, e os dois depois da vírgula,
Volto pro sofá e leio mais uma página do livro, flagro de soslaio meus dedões e decido por esmalte

Mas hoje é domingo

E nada está aberto

Não encontro sossego em quietude

 
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Posted by on September 1, 2013 in literario

 

Compreendo

Tem páreo bom
Que aleija
Encaixe de letra e som, letra e papel, letra e imagem
Beira o licito
Eu
Invejo o ranso doce do bafo do junkie
Absorvido, absorto, absoluta-se

Como goza, como goza!
Sozinho, com sua musa
Én mundo inteiro, basta

leveza avassalante

Assim li uma frase de Marcus
E uma pausa de Claudia
A pele pede tinta de Antônio

Ler, flor de papoula

 
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Posted by on July 4, 2013 in literario

 

Saudade de árvores

Amendoeira na esquina de casa
Dava toda sorte de comida de mentira
Menos o arroz da Maria-fecha-a-porta
Ali defronte minha irmã quebrou o braço

Mangueira no quintal de meu avô
No galho a gente fez um balanço
Ia trocar gamelas e buscar ovos
E no outro canto um cajueiro que não sinto saudades
Mas lembro da fumaça da torra da castanha com Suely, de quem nunca mais tive notícia

A água gelada nas pedras âmbar
Do rio de trás da casa de tio Antônio
Que nem sei se passa lá mesmo
Ou só no mapa da saudade
A inigualável casa de tio Antônio!
Saudade de todas as árvores!

Saudade da goiabeira do Posto Leonardo
Saudade das sete macieiras perfiladas que via certa época da janela de casa
Saudade pré-datada desta bétula contorcida
– tronco acanelado –
Que um vizinho sem coração
Marcou pra ser derrubada
Que ele prefere ver a rua…

 
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Posted by on June 11, 2013 in literario

 

hoje er’um dia

de fazer colagens de jornal

ao decorrer discorrer das paredes

e de tomar coragens

era pra ser

mas

hoje não houve nada

não houve nada, mas tão forte

(os pneus depositavam confidencias nos poros do asfalto)

que

(as sombras se esconderam nos trocos)

sumiram-se três cores

ninguém deu conta

.

coragem é dessas plantas que ninguém sabe como pega.

(aqui eu ia botar uma palavra que eu esqueci.)

 
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Posted by on January 25, 2013 in literario

 

claro

É claro que eu sinto falta, fica a impressao exata da ausencia 

 

mas eu acho que aaquele tempo eu precisava

para dar conta do mundo

para botar o mundo num eixo

 

mas hoje eh quase nada eu acho

que fale em voz alta que diga mais

sobre o tamanho marmorial das coisas pequenas

a simplicidade desesperante das coisas complexas

– a vida se circunvoa

 

hoje eu aceito e as vezes

murmuro 

e sinto saudade do tempo em que o tempo

era imensuravel

e palavras

davam conta

 
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Posted by on April 27, 2012 in literario

 

APOIE A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO

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Posted by on February 12, 2012 in literario