O verão prometido não chegou. Ainda. Mandou prenuncios enganosos, dois dias bonitos de primavera. Junho se chove, tobogando de segunda a segunda.
Na verdade,… nao importa. A segunda tropeca na terca sem que eu tenha tempo – forcas – para cuidar desta coisa dentro de mim que quer produzir, e nao arquivar. Para ser mais. Para sentir(-me) mais. Trabalho em uma cidade e moro em outra. Esqueco minha propria lingua. Lembro do cheiro, da luz, da carteira da sala de terceira serie, mas nao consigo lembrar da expressao que procuro: a que se refere aa pesoa que mora em uma cidade e trabalha em outra.
No trem a caminho do trabalho exerco as vezes o prazer voyeur de escutar a conversa dos outros. Aqui nao se conversa muito. Aqui se escuta musica no i-pod, aqui se le o jornal, aqui se tecla, se twitta, no trem.
Da escada rolante da estacao de metro do Teatro Nacional vejo o texto em neon correndo na parede – uma fala de Puck. “Cupid is a knavish lad, / Thus to make poor females mad”. Contando os minutos, atravesso a porta giratoria e passo pelo junkie e seu carrinho de supermercado com a seguinte placa: “Desfaca-se de algumas coroas e alegre meu dia”. A papelaria fecha em cinco minutos. Quase corro. Passo por grupos de turistas entretidos com a escrita na calcada. Frases de Ibsen embutidas na pedra-sabao e o homem-estatua provavelmente intoxicado de tanta tinta dourada no corpo agucam meu sentimento de culpa. A papelaria fechou. Volto aa estacao de metro, sem alegrar a vida do junkie, e espero o metrô 5.
A Sra Hegli morreu ha duas semanas, minha vizinha, e ninguem avisou o jornaleiro. O jornal de hoje dela me olha do meu capacho. O tenis encostado no limiar da porta me diz que meu marido esta em casa. A roupa limpa na sacola da Ikea me esfrega na cara que o dia eh curto.
Sonhei com uma barata indignada, na minha sala de maternal reclamando das tentativas de assassinato que tem sofrido. O angulo muda. Me vejo de havaiana em punho. Camera dois: a decepcao no rosto da barata eh obvia. Et tu, Brutus. Sonho acordada com horas de silencio e indisponibilidade no corredor escuro e mofado de uma livraria. Fazemos a janta, comemos a janta, lavamos os pratos, aspiramos o chao, mato um pouco da saudade da familia na janelinha azul do ‘mensageiro’.
E mesmo se o sol nao se poe as horas passam. Me pego acordando mais tarde do que deveria, bebendo o cafe, me vestindo e escovando os dentes ao mesmo tempo, me apressando pra nao chegar atrasada no trabalho.
O instituto Ibsen nao quer abrir excecoes. Nao estou em posicao de negociar no trabalho. Nao abre aos sabados. Fecha as quatro no verao.
Eu quero um lar com mais paredes, com espaco para estarmos juntos e sozinhos, cada um consigo e com o seu. Para que Ze nao precise usar protetor de ouvido quando eu quero falar com a familia e ele ler. Para que outra lingua nao se infiltre nos meus miolos quando estou tentando pensar na minha. Para que possamos passar o nosso tempo livre no mesmo espaco ocupados com passatempos diversos.
Sem culpa de nao estar cultivando a companhia um do outro, sem culpa de nao dobrar as roupas.
Para isso preciso do emprego. Para garantir o emprego preciso me submeter. Para me submeter preciso me reprimir. Para me reprimir eu preciso tentar me redimir da culpa de ter de por o Dr. Wangel na geladeira. E de estar aqui desabafando para a multidao anonima, ouvindo La Bayamesa no “repeat”, enquanto Ze a 4 metros assiste um programa sobre og grandes felinos.


GENIAL SUA REFLEXÃO Marina, MAS NÃO SE PREOCUPE AOS POUCOS VOCE VAI CHEGAR LA.vOCE JA É UMA VENCEDORA POR ESTÁ NUM PAIS DE TÃO DIFICIL SOBREVIVENCIA E ESTÁ SE ADAPTANDO MUITO BEM QUERIA TER UM POUCO DESSA SORTE AMOROSA AINDA ESTOU AGUARDANDO O PRINCIPE, ENTÃO NA MINHA OPINIÃO VOCE É UMA MULHER REALIZADA PORQUE O AMOR ÉO ESSENCIAL DE TUDO.Um abraço.