O verão prometido não chegou. Ainda. Mandou prenuncios enganosos, dois dias bonitos de primavera. Junho se chove, tobogando de segunda a segunda.
Na verdade,… nao importa. A segunda tropeca na terca sem que eu tenha tempo – forcas – para cuidar desta coisa dentro de mim que quer produzir, e nao arquivar. Para ser mais. Para sentir(-me) mais. Trabalho em uma cidade e moro em outra. Esqueco minha propria lingua. Lembro do cheiro, da luz, da carteira da sala de terceira serie, mas nao consigo lembrar da expressao que procuro: a que se refere aa pesoa que mora em uma cidade e trabalha em outra.
No trem a caminho do trabalho exerco as vezes o prazer voyeur de escutar a conversa dos outros. Aqui nao se conversa muito. Aqui se escuta musica no i-pod, aqui se le o jornal, aqui se tecla, se twitta, no trem.
Da escada rolante da estacao de metro do Teatro Nacional vejo o texto em neon correndo na parede – uma fala de Puck. “Cupid is a knavish lad, / Thus to make poor females mad”. Contando os minutos, atravesso a porta giratoria e passo pelo junkie e seu carrinho de supermercado com a seguinte placa: “Desfaca-se de algumas coroas e alegre meu dia”. A papelaria fecha em cinco minutos. Quase corro. Passo por grupos de turistas entretidos com a escrita na calcada. Frases de Ibsen embutidas na pedra-sabao e o homem-estatua provavelmente intoxicado de tanta tinta dourada no corpo agucam meu sentimento de culpa. A papelaria fechou. Volto aa estacao de metro, sem alegrar a vida do junkie, e espero o metrô 5.