Putz, os anos que gastei
para achar minha caligrafia -
que copiei de minha mãe e de uma pessoa que hoje odeio.
Quanto exercício, quantas linhas azuis em aulas tediosas!
Quanta energia gasta em me cartografar!
Se eu soubesse que ainda hoje eu não saberia…!
E que quando penso em mim e quero descrever-me
sou a lembranca nublada que não sei se vivi ou sonhei
uma terra distante, fictícia,
um monstro das Américas,
com pés, escamas e chifres, cheio de dentes.
Minha memória de mim é sépia,
me vejo através dos olhos de um cachorro.
Mas cato pistas:
Na minha cabeca o ano é uma elipse com junho e julho na base,
se o tempo passa eu escorrego.
A semana parece um diagrama de colunas coloridas,
mas na verdade, em 3D, é uma mola grossa e irregular.
A cara de Deus é um título de Márquez
com um ípsilon de Schultz.


